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sábado, 21 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Eu que não fumo, queria um cigarro...
Cigarro faz mal a saúde. Cigarro mata, deixa o homem impotente, causa câncer, tem milhares de substâncias tóxicas e blá blá blá. O governo gasta o dinheiro público com campanhas contra o seu consumo. Cerca de vinte milhões de brasileiros vive na miséria. Falta-lhes emprego, moradia, educação e tantas outras coisas fundamentais para sua sobrevivência, mas o cigarro mata... mais ou menos que a marginalização que o sistema determina na conjuntura ideológica operante no país? Parece que o foco das preocupações dos poderes que regem a nação recarem sobre o prazer, digo, para coibir o cidadão na sua busca pelo prazer. Há tanta coisa mal direcionada: a polícia, a penitenciária, as leis, a moral... tudo isso busca uma tentativa de colocar as coisas em ordem aqui embaixo da linha do equador. Para os consumidores do álcool, aquela mensagem clichê de sempre "se beber, não dirija...", aos fumantes "cigarro causa dor". Onde está a maior dor? É certo que o indivíduo nem sempre se delibera quanto ao uso de drogas, lícitas ou ilícitas, e é de se convir que o mesmo tem uma certa liberdade para escolher aquilo que lhe proporciona algum tipo de bem-estar.
E naquelas horas em que a ansiedade chega ou talvez por um momento em que o sujeito dá mesmo vontade de fumar porque está apaixonado? O cigarro lhe cai bem e junto com ele o estigma de "fumante". "Fugir da realidade ou tentar se sobrepor a ela através do uso de qualquer droga não é certo, não resolve", diz o senso comum. Por um lado há um tanto de verdade nisso, mas, por outro, deveria se levar em consideração outras drogas mais pesadas, como a religião. "A religião é o ópio do povo", dizia Marx. Ele "peca" ao investir tal aforismo? Não, embora não esteja de todo correto. "A religião é o placebo das massas" é uma colocação mais apropriada na questão. Você não pode isso, aquilo e aquilo mais, porque não pode e ponto final. Como assim "não pode"? Quem está sob a epiderme de cada um pra saber o que se pode ou não? Os mais ou menos religiosos até bebem vinho, mas fumar... não, Jesus não fumou! Eis o modelo do que se deve ou não fazer. O que é oferecido sem bandeja prateada é um cardápio de miséria, fome, dor e preconceitos.
Quando alguém que não fuma quer um cigarro, certamente tem suas razões, assim como o imaculado sem álcool no sangue. No filme "Obrigado por fumar" há uma discussão sobre o fumo, o filho do protagonista fora instruído na escola que não se devia fazer, dentre outras coisas, uso dele. Seu pai intervêm dizendo algo assim: "nunca deixem que te digam o que fazer. A professora é um perito? Se não, não lhe dê ouvidos". A mensagem aqui é que se tem uma educação escolar baseada na ignorância. Professores de matemática, que não fizeram medicina, não devem assumir o papel de um especialista em tabagismo... eles não têm sequer bacharel em medicina! A manipulação de comportamento está distribuída erradamente na sociedade. Médicos não são autoridade para determinar a fusão nuclear; geólogos não têm suporte teórico ou empírico para dizer com propriedade que a interação do consciente com o inconsciente se dá desta ou de outra forma; assim como os psicólogos não devem se meter onde sua especialização não alcança.
A grande questão aqui é a liberdade humana de decidir fazer o que quer, e se adentrarmos corretamente no Hedonismo, percebemos ali, muito diferente de qualquer outro lugar, que o que é correto fazer é aquilo que dá prazer, numa perspectiva ética de respeito à felicidade do outro. Esse Hedonismo, com H maiúsculo, é uma filosofia antiga, e portanto, propõe que a felicidade do ser humano é determinada pelo prazer que ele tem em fazer qualquer coisa que lhe agrade, desde que tal coisa não prejudique a si e ao outro. Parece contraditório com o discurso que defente o uso do tabaco. Não é a apologia ao tabagismo, mas à liberdade do homem, da mulher e até, da criança, dentro dos limites que lhe cabem, de exercê-la.
E naquelas horas em que a ansiedade chega ou talvez por um momento em que o sujeito dá mesmo vontade de fumar porque está apaixonado? O cigarro lhe cai bem e junto com ele o estigma de "fumante". "Fugir da realidade ou tentar se sobrepor a ela através do uso de qualquer droga não é certo, não resolve", diz o senso comum. Por um lado há um tanto de verdade nisso, mas, por outro, deveria se levar em consideração outras drogas mais pesadas, como a religião. "A religião é o ópio do povo", dizia Marx. Ele "peca" ao investir tal aforismo? Não, embora não esteja de todo correto. "A religião é o placebo das massas" é uma colocação mais apropriada na questão. Você não pode isso, aquilo e aquilo mais, porque não pode e ponto final. Como assim "não pode"? Quem está sob a epiderme de cada um pra saber o que se pode ou não? Os mais ou menos religiosos até bebem vinho, mas fumar... não, Jesus não fumou! Eis o modelo do que se deve ou não fazer. O que é oferecido sem bandeja prateada é um cardápio de miséria, fome, dor e preconceitos.
Quando alguém que não fuma quer um cigarro, certamente tem suas razões, assim como o imaculado sem álcool no sangue. No filme "Obrigado por fumar" há uma discussão sobre o fumo, o filho do protagonista fora instruído na escola que não se devia fazer, dentre outras coisas, uso dele. Seu pai intervêm dizendo algo assim: "nunca deixem que te digam o que fazer. A professora é um perito? Se não, não lhe dê ouvidos". A mensagem aqui é que se tem uma educação escolar baseada na ignorância. Professores de matemática, que não fizeram medicina, não devem assumir o papel de um especialista em tabagismo... eles não têm sequer bacharel em medicina! A manipulação de comportamento está distribuída erradamente na sociedade. Médicos não são autoridade para determinar a fusão nuclear; geólogos não têm suporte teórico ou empírico para dizer com propriedade que a interação do consciente com o inconsciente se dá desta ou de outra forma; assim como os psicólogos não devem se meter onde sua especialização não alcança.
A grande questão aqui é a liberdade humana de decidir fazer o que quer, e se adentrarmos corretamente no Hedonismo, percebemos ali, muito diferente de qualquer outro lugar, que o que é correto fazer é aquilo que dá prazer, numa perspectiva ética de respeito à felicidade do outro. Esse Hedonismo, com H maiúsculo, é uma filosofia antiga, e portanto, propõe que a felicidade do ser humano é determinada pelo prazer que ele tem em fazer qualquer coisa que lhe agrade, desde que tal coisa não prejudique a si e ao outro. Parece contraditório com o discurso que defente o uso do tabaco. Não é a apologia ao tabagismo, mas à liberdade do homem, da mulher e até, da criança, dentro dos limites que lhe cabem, de exercê-la.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Desperate Graves
"When I breathe
the heavens can't hold me
And I can't believe anymore
The light breathes
the highest execution
Show me the wings I must cut"
The tears just fall in my face when I hear this song. Its beauty matches with blood, hopeless, lonely and even, with everything unlike these things. The way how I can feel some things is so strange, but there's some truth it.
"I'll light the king
that locks you in
I'm the matchstick
that you'll never lose"
Looks like a falling angel, my wings blows the most pure air inside my brain. My heart pulse fast, my veins blow up billions of life. Yes! I can feel life on desperate. I never wonder the end, the pain, the sorrow like a bad stuffs to accept on my finite context inside the immensity and wonderful cosmos.
"Give me the alter
let me shine
The pendulum won't wait"
The playing guitar can touch in every dark night transforming it in a revolution shining day. His fenomenal voice invades my lungs, cut my flesh, break my bones. Even so, each piece of my body reconstitutes itself through this song. The only thing that I really want is let the day follow the sunrise inside me.
I'd like to show every chinese box inside the other in my mind, "these are the splinters made from a single blade" because "I'm the matchstick that you'll never lose".
(Because I didn't resist listening to "desperate graves" by The Mars Volta).
the heavens can't hold me
And I can't believe anymore
The light breathes
the highest execution
Show me the wings I must cut"
The tears just fall in my face when I hear this song. Its beauty matches with blood, hopeless, lonely and even, with everything unlike these things. The way how I can feel some things is so strange, but there's some truth it.
"I'll light the king
that locks you in
I'm the matchstick
that you'll never lose"
Looks like a falling angel, my wings blows the most pure air inside my brain. My heart pulse fast, my veins blow up billions of life. Yes! I can feel life on desperate. I never wonder the end, the pain, the sorrow like a bad stuffs to accept on my finite context inside the immensity and wonderful cosmos.
"Give me the alter
let me shine
The pendulum won't wait"
The playing guitar can touch in every dark night transforming it in a revolution shining day. His fenomenal voice invades my lungs, cut my flesh, break my bones. Even so, each piece of my body reconstitutes itself through this song. The only thing that I really want is let the day follow the sunrise inside me.
I'd like to show every chinese box inside the other in my mind, "these are the splinters made from a single blade" because "I'm the matchstick that you'll never lose".
(Because I didn't resist listening to "desperate graves" by The Mars Volta).
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Antes do amanhecer
“Todos os relógios da cidade
Começam a sussurrar harmonicamente
Não deixe o tempo iludir você
Você não pode dominar o tempo
Nas dores de cabeça e aborrecimentos
A vida escapa distraidamente
E o tempo terá seu capricho
Amanhã ou hoje.”
(W. H. Auden)
Começam a sussurrar harmonicamente
Não deixe o tempo iludir você
Você não pode dominar o tempo
Nas dores de cabeça e aborrecimentos
A vida escapa distraidamente
E o tempo terá seu capricho
Amanhã ou hoje.”
(W. H. Auden)
Um pequeno lapso é capaz de dar um novo sentido àquilo que pode ser visto, entendido, sentido. O tempo escapa entre dois acordes numa melodia, eterniza o momento. E aquele cigarro saboroso, que a alguns incomoda, torna o hic et nunc único e inesquecível. O abraço sincero e doce daquela criança colocada no mundo, que desde seu nascimento se estampa finita. Será assim? Só isso e nada mais? O que realmente perdura? Diria um poeta "o que é, é o que sempre foi e será... nada além ou aquém... nada dura pois tudo é eterno". O eterno se reconfigura sempre, se auto-destrói e a si mesmo reconstrói. A beleza das coisas está no jeito de olhar, de sentir, de provar. As nuvens passam acima, os rios seguem seu rumo e se entregam de corpo e alma ao mar, as flores murcham, as folhas caem, os cabelos ficam grisalhos ou caem; e o tempo dá conta de si. Tudo que resta é poeira estrelar. Cria a beleza, desfaz o sentido de ser se dando a um novo, ainda que seja o mesmo. O novo está fora do tempo... vive fora e paralelamente a ele. A imanência está presente em cada sensação e tudo dará certo da próxima vez... porque sempre deu. Não há novidades sob a imensidão do cosmo, ainda que pareçam haver. Aquele ou aquela que nunca se deitou do lado de quem deseja o faz, de um jeito ou de outro. Ventos sopram e desaceleram essa pequena-grande bola que pisam, mergulham e voam seguros pela gravidade. Os poemas brotam na dor, na esperança, na alegria... a vida tem tanto a oferecer!
Um dia o pai ouve do seu filho "eu te amo". Ele se adota, extasiado pela declaração pura e se abre para novas adoções. Quer outros filhos, filhas, e ama... consegue verbalizar o inefável. Sendo pai adotivo, adota uma filha, agora sabe como toda simplicidade se forma... simplesmente.
(Inspirado no filme "Antes do Amanhecer" e dedicado aos filhos e filhas... gerados... adotados)
domingo, 8 de novembro de 2009
Religião, Futebol e Política - se discute ou não?
Tendo em vista que quase todas as sociedades são heterogêneas é quase impossível não haver discussão sobre os aspectos que lhes dizem respeito, como religião, futebol e política. Apesar de algumas peculiaridades que as integram serem supostamente irrelevantes - futebol, por exemplo -, é possível dar outra dimensão a elas. É nesse sentido que discutir tais temas, de forma respeitosa e diplomática, é importante.
Futebol faz parte do cotidiano e da cultura do Brasil. É possível que as pessoas estejam mais envolvidas com o esporte do que com filosofia e a própria Política nacional. Daí nascem algumas questões: "o que determina a amplitude do investimento na área esportiva do país?", "por que o futebol é visto como orgulho nacional, sendo que em outros aspectos, como a economia, não estamos no topo, como estão as nações desenvolvidas?", "se futebol também é comércio, que tipo de ideologia está por trás dele?". Em muitos países o esporte não é um movimento cultural descontextualizado da educação superior, e sendo assim, a maneira como os atletas se portam numa competição difere muito da nossa. Na América do Sul, como em outros lugares onde a pobreza tem um índice alarmante, a lógica segue os padrões de outros, onde o salário de um jogador não difere absurdamente de um médico, funcionário público ou operário. Eis uma discrepância agravante, e por conseguinte, um endeusamento da profissão "jogador de futebol" - não é incomum se ver crianças sonharem com isso e abandonarem a escola. O cantor Gabriel Pensador faz uma crítica a isso na música "brazuca", e diz "futebol não se aprende na escola, é por isso que brazuca é bom de bola [...] muita gente até chorou com a comemoração, orgulho de viver nesse país campeão [...] é campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação", e por aí vai.
Discutir futebol no sentido de provar que um time é melhor que outro e até provocar confusão é o tipo de coisa que deve passar longe das relações entre as pessoas, mas será que o Brasil tem educação para dialogar de outra forma a respeito disso? A catimba, o desrespeito para com o oponente etc, se tornaram tão comuns por aqui que talvez os brasileiros ainda não tenham aprendido a conversar sobre isso com decência.
Política é uma das áreas mais controversas em qualquer sociedade. Interesses econômicos e jogos de poder se camuflam por trás dela. Discutir política é um risco de morte, de emprego, de estigma social, dentre outras coisas. Isso por que a maioria esmagadora da população que integra o país é politicamente analfabeta e segue tendências diversas: o coronelismo, o ressentimento econômico manifesto na preferência por um candidato que jura estar do lado do marginalizado, o extremismo ideológico por parte de pessoas que nem sequer sabem qual a verdade que opera nos bastidores do partido de sua preferência. É muito comum os "heróis" políticos em estampas de camisas; discursos enfadonhos e fanáticos a respeito do marxismo; críticas ao liberalismo comercial, ou neoliberalismo, sem que se leve em consideração as vantagens do mesmo, embora não sejam inquestionáveis, e assim por diante. Mas, quando foi que houve uma conferência para se propor um entendimento entre as várias facções políticas no Brasil? As forças que impulsionam a política não são tão discrepantes das forças que compõem o indivíduo? Ele é paradoxal e capaz de sintetizar-se, e portanto, estando os mesmos unidos em um corpo social, não estaria apto a fazer uma síntese de perspectivas nesse sentido? Discutir política com a preconceitos de verdades absolutas é sem dúvida improfícuo, para não dizer um perigo. Mas política não é só partidarismo. É um conceito tão amplo e originalmente mais sofisticado que o normalmente entendido e envolve discussões a respeito da cidadania, dos direitos em vários níveis, da liberdade de expressão, e tanta coisa mais. Discutir esse tipo de política é quase uma ação inexistente, de tanto se pensarem em Esquerda, Direita, Centro-Esquerda... extremo-isso e extremo-aquilo.
Religião é o elemento mais subjetivo dos três apresentados aqui, e mesmo assim há os panfleteiros. Chega a ser um desrespeito ser invadido no domicílio por uma facção religiosa que prega a "única verdade". Geralmente tais pessoas não estão abertas a um tipo de discussão mais aberta, questionadora. Mesmo assim, discutir religião é algo que deve acontecer, nem que seja entre pessoas ou grupos mais "educados". Os portugueses trouxeram o Cristianismo para a Colônia e foi ele que predominou até os dias hodiernos. Outras Religiões praticamente quase não tem espaço no Brasil e indo mais além, a não-religião, ou seja, os grupos indiferentes a qualquer concepção religiosa, estão sufocados. Se dentro de uma só Religião existem diversas formas de ver aspectos fundamentais e periféricos - como a transubstanciação ou consubstanciação do corpo de Cristo na Eucaristia; pecado original etc -, não é difícil imaginar que ateus e agnósticos sejam ainda mais ridicularizados e coibidos de manifestarem suas perspectivas na questão. Ora, se a fé ou a religiosidade é tão subjetiva como dizem, por qual razão as expõem tanto e de uma forma belicosa, catequizadora, domesticadora? Entretanto e em meio a tanta diversidade, ainda é possível fazer trocas de percepções sobre religião, mesmo sabendo que é uma atitude complicada.
Em todos os casos abordados aqui prevalece o fator "educação" e "sociabilidade" operante em uma determinada sociedade. Nunca se chegará a um entendimento sem que a diplomacia e o respeito mútuo, como também a tolerância ao "diferente" sejam colocados em prática.
Discutir é uma coisa. Fazer guerra em nome de ideais é outra bem diferente.
domingo, 1 de novembro de 2009
Jeder für sich und Gott gegen alle
Kaspar Hauser apareceu de repente na praça de Nuremberg em maio de 1828. Possivelmente neto de Napoleão Bonaparte, fora criado num calabouço e “vomitado” dele na adolescência. Em 1974, o cineasta alemão Werner Herzog fez um filme sobre ele. Dá pra se fazer paralelo de algumas de suas falas com muita coisa, por exemplo, quando vê de longe a torre que tinha sido criado diz “Como pode ser isto?” – Hauser estava confuso diante da sociedade que lhe “abduziu” e com um pequeno equívoco panorâmico, que era ver tão pequena uma torre grande. Depois comenta “Como esta torre é grande! O homem que a construiu deve ser muito alto!”. Fato era que o jovem rapaz desconhecia o mundo cruel do lado de fora da torre. Tudo lhe era hostil e ele próprio era uma aberração para todos. Mas o lugar era Nuremberg, que viria a ser, mais tarde, palco de uma das mais importantes ações jurídicas da história, o julgamento dos “genocidas” da Segunda Guerra Mundial, os Nazistas.
Jeder für sich und Gott gegen alle, nome do filme de Herzog no original em alemão, que significa “Cada um por si e Deus contra todos”. Kaspar Hauser nascera e vivera neste mundo, mas a história é um ciclo de repetições. Logo após a Guerra formou-se um tribunal em Nuremberg e durante quase um ano houve condenações à pena de morte, prisões perpétuas etc. “Como pode ser isto? [...] o homem que a construiu deve ser muito alto!”. Hauser não estava totalmente errado, a não ser por uma questão estrita de semântica. Mas não importa, tanto a torre quanto o Tribunal foram feitos por homens altos, ou melhor, poderosos. A sociedade do século XIX foi hostil a um ser inocente, com uma visão de mundo própria; o teve, literalmente, como cobaia de laboratório. E mais, tentou educá-lo, moldá-lo conforme se autoconcebia – as sociedades homogêneas sempre gostaram, e gostam, de uniformizar o pensamento, as ações, os costumes... quiseram até catequizar Hauser na cristantandade! O filme o mostra em estado claustrofóbico dentro de uma igreja e em seguida, saindo da mesma, nauseado, se sentido violado. Os direitos humanos não se aplicavam a um “desumano”. A história se repete, nos rótulos, nos julgamentos, nos estereótipos. Martin Bormann, Hans Frank, Ribbentrop, dentre tantos, não podem ser comparados a Kaspar Hauser... eram anti-semitas, criminosos, desprezíveis... certo? Errado! Nuremberg foi palco, nas duas situações, de um julgamento desumano. No primeiro caso foi a enorme capacidade que o ser humano tem de ser “bárbaro”, e no segundo, a velha lei do Talião.
O Revisionismo Histórico busca provas factuais e o que se sabe hoje é que Nuremberg foi um Tribunal parcial, montado para atender às necessidades primitivas da humanidade, o ressentimento. Fazer apologia à algo desprezível como o anti-semitismo é totalmente descabido, mas veredictos com bases em “ouvi dizer que foi assim” e “isso aconteceu comigo” sem as devidas provas fere o princípio jurídico in dubio pro reo.
Kaspar Hauser foi morto covarde e inescrupulosamente. Os Nacionais Socialistas condenados, sem dignidade e direito de defesa factual. Em que mundo estavam inseridos? O “homem alto”, poderoso, que vence uma guerra, é quem dita as regras, e depois oferecem uma narrativa da história a partir de seu ângulo. É sempre bom questionar, mas, quem o fará quando o assunto é proibido por lei?
sábado, 31 de outubro de 2009
Brevilóquio sobre o amor
Antes de entendermos as diferentes concepções para uma só palavra no nosso idioma, é interessante observarmos as motivações que integram o conceito superficial do amor. Por que amamos? Por que vemos beleza nas diversas formas de declaração de amor? Por que cultuamos a algo sem que saibamos exatamente as suas motivações fisiológicas, psicológicas e racionais? Por que sacramentamos o amor, como se fosse algo intocável, divino? Responder a essas questões requer um profundo e amplo conhecimento de casos: contextos culturais; construção intelectual, ética e religiosa; classe social em que o ser humano está inserido; relação afetiva familiar e social etc. Ou seja, não é uma tarefa tão fácil como diagnosticar uma isquemia cardiovascular com um simples estetoscópio. Entretanto, é possível apontar alguns fatores que determinam o modo de agir de uma pessoa, de uma tribo ou de uma sociedade, em determinada época na história.
Sabe-se que existe uma predisposição genética para o amor entre as espécies. As “autoridades” atuais em biologia decodificam tal fenômeno e o situa – somos ambiguamente “egoístas” e “altruístas”. Embora nada do que se diz na área seja uma verdade que se aplica a todos, e em todos os casos. Compreender o comportamento humano requer, imprescindivelmente, compreender de forma etológica – que é entender o comportamento humano sendo ele também animal. E partindo daí, pode-se perceber que toda ação humana, ou animal, relacionada a um ser da mesma espécie ou não, é motivada pela cooperação e/ou competição entre os “iguais” ou “diferentes”. Não existe uma lei natural dentro da perspectiva biológica que ponha um ponto final na questão e nos garanta que “amamos por uma questão genética”.
Em distintos períodos históricos o amor teve disparidades conceituais. É anacronismo tentar olhar para a Grécia e Roma antigas e definir o amor da forma que "entendemos" hoje. É muito comum ouvirmos frases como “o único amor verdadeiro é o amor de mãe”. Quem mergulha na história sabe que não é bem assim. Talvez até as relações familiares atuais coloquem em cheque tal determinismo.
As artes, principalmente na modernidade, exaltaram o amor. Romeu e Julieta; Tristão e Isolda; Otelo e Desdêmona; são montagens literárias que exprimem uma era romântica nas relações amorosas. Os poetas, os músicos – “o amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”; “moolight sonata” etc. Assim como as produções cinematográficas, os romances, as baladas dos 80’s... Talvez Cazuza tenha feito uma das críticas mais sinceras ao cantar “o nosso amor a gente inventa”.
Sendo produto de uma construção cultural, o amor, assim como tanta coisa que hoje se eleva ao status de intocável, foi adornado de beleza, de divindade, de Deus propriamente dito!
Duas palavras em inglês pode, dependendo do contexto, significar amor: love e like. Em português nos limitamos a um termo. Mas em grego temos meia dúzia deles, e que separam o que se quer dizer nesse particular: Eros – a atração estética e sexual entre os entes; Estorge – afetividade conseqüente de uma amizade a longo prazo; Pragma – o interesse no outro baseado nas vantagens que se pode obter com a relação; Ludos – a satisfação momentânea da arte da conquista, e portanto, sem duração; Mania – o sentimento de posse sobre outro, ou ainda, uma relação de poder; e Ágape – o altruísmo.
Difícil é, em nossa cultura heterogênea, separar e se enquadrar nesta ou naquela definição amorosa. Agora, um tipo de amor que poucos já ouviram falar é ainda a forma mais atemporal... o amor fati – amor ao destino; àquilo que se quer ser; ao futuro de si e da humanidade.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Comfortably Numb
No fim da música comfortably numb, ao vivo, álbum Pulse do Pink Floyd, ouvimos e flutuamos com os bends divinamente tocados. Essa versão é executada um pouco mais lenta que a gravação estúdio, talvez propositalmente em pelo menos dois sentidos; o primeiro, pelo fato de a banda já estar numa fase “terminal”; e segundo, para sincronizar com o próprio nome da canção.
Pink Floyd tanto fez sucesso quanto vendeu discos. Se tornou pop. Mas essa conseqüência foi apenas conseqüência. Em 1973 a banda estourou com o The Dark Side of the Moon e em 1979 veio o seu álbum mais conhecido, o The Wall. E é aí que vemos que a sua popularidade não era o objetivo principal; vemos a pergunta “Será que vocês estão entendendo o que queremos dizer?”. A fama não lhes agradava, e por conseguinte, afetava a proposta filosófica que tinham. Em Animals existe toda uma fundamentação no livro Animal Farm, do George Orwell; uma crítica ao stalinismo aproveitada sonoramente. No Dark Side, anos antes, eles expõem de uma forma complexa o desdobrar do ser humano no mundo. Pink Floyd é uma banda para quem tem bom gosto, maturidade intelectual e perspicácia; é digna de tese de mestrado! A busca pela perfeição musical era a “palavra de ordem” nos 60’s... e eles conseguiram.
Em um documentário homônimo do disco de 73, Roger Waters, um dos principais “cabeças” do grupo diz que “algo no conceito newtoniano sobre essa física é interessante e pode ter nos influenciado”. Não se deve pensar que uma banda desse quilate foi comércio. Em todos os seus álbuns, e dentro deles, nas músicas, reverbera um discurso, uma filosofia, uma reflexão, uma crítica, um sentimento; alguma coisa que nos impulsiona a desejar que a vida seja algo diferente do que podemos ver. O meio de fazer com que isso atinja todo o mundo é o mais eficaz, a música; e não só música, mas música perfeita. É dessa forma que os pink floyd que o século passado nos deu o prazer de ter é: perfeição total. Enquanto as expressões musicais ruidosas dominam a camada social “desprivilegiada” (leia-se pobre artisticamente), cantamos, entre tantas outras de suas maravilhosas canções:
“Now I've got that feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb”.
domingo, 25 de outubro de 2009
De mito em mito a massa enche o saco
Shiva chove em chão molhado. Os mitos formam um bocado.
Tiradentes atira no que não lhe foi tirado. E mesmo assim é cultuado.
Marx para quem precisa de clichê. Chega de ópio – diz o enfastiado.
Bush caça as bruxas no neo-Maleficarum. O oleoduto do coitado.
"Jesus não tem dentes no país dos banguelas". Esse do lado.
Gengis Khan canonizou a estratégia. O herói também é bastardo.
Che liberta inocentes no El Paredón. Ícone das massas adorado.
Eros cristianizado bebe seu próprio veneno. Ele agora é viciado.
Ratzinger aboliu o limbo. Livrou dos inocentes o pecado.
Faustão enfastia o domingo dos ociosos. Eis um novo papado.
Lula pulula entre Zapata e Rockefeller. E quer o terceiro mandato.
Wiesel quer combustível para as vítimas. Estratego sofisticado.
Roosevelt fomenta Pearl Harbor. E ainda se diz atacado.
E a história se repete.
Num ciclo sem fim.
Sem começo e sem meio.
A massa quer pão.
O circo lhe é dado.
"Pois tudo tem que virar óleo pra por na máquina do Estado".
sábado, 24 de outubro de 2009
Liberum Arbitrium
Aqui está um conceito que tem uma abrangência ideológica muito extensa e é, na prática, inviável sintetiza-lo num pequeno texto. Livre-arbítrio, em português, cuja expressão teve maior ênfase na religião e área jurídica, é entendido como responsabilidade moral. Em linhas gerais, se tem de um lado o modus operandi do indivíduo como completo responsável em termos morais, capaz de criar situações a seu modo e, do outro, uma “des-responsabilização” que o aponta como um projeto em construção, fora da concepção inatista. A diferença substancial aqui é uma dicotomia na forma de ver o ser humano: a liberdade com vontade – o ser como inteiro responsável por tudo que faz -, e a ausência de liberdade e vontade com conseqüências nas suas decisões.
Partindo dessa noção generalizada dos ângulos que vêem o ente inserido no corpo social, desta ou daquela forma, é imprescindível analisar as implicações subjacentes. Juridicamente falando, mesmo nos paises ditos laicos, todo processo de limitação ou permissão das ações humanas é baseado numa milenar cultura de valores. Na França não existem crucifixos nos tribunais de justiça, mas, por existir um corpo de leis que é vinculado à antiga moralidade religiosa, ainda é uma nação que aplica punições aos infratores, ou seja, o livre-arbítrio está em voga no sentido de responsabilizar o cidadão. Justiça e moralidade andam de mãos dadas, em (quase) todo tempo e lugar. O século passado nos trouxe uma nova perspectiva, que é a relativização das ações humanas, principalmente no âmbito da mecânica quântica. Num texto extraído do filme “Waking Life”, temos uma demonstração do que aqui se propõe que diz que “há atividade elétrica no cérebro. Os neurônios disparam enviando um sinal através dos nervos até os músculos. Estes se contraem, mas cada parte desse processo é governada por leis físicas, químicas, elétricas etc”. Mas esse ponto de vista não resolve o problema da vontade livre, pois, querendo ou não, parte do que nos constitui neurologicamente “parece” ter vontade própria e ao mesmo tempo também “parece” não ter.
Não obstante a divergência destas teorias, fica a pergunta “os homens foram pensados como ‘livres’ para que pudessem ser julgados e punidos, para que pudessem ser ‘culpados’?”* Há quem diga que sim e há quem diga que não.
* Idéia originalmente colocada na afirmativa por Nietzsche em Os Quatro Grandes Erros - Erro da Vontade Livre -, Crepúsculo dos Ídolos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Et maintenant, à vous!
Quando se constrói um texto a partir da abordagem filosófica, reivindicando pensadores que mais se destacaram na história, algumas pessoas fazem de conta que não lêem ou simplesmente ignoram o que está sendo proposto nele. A filosofia começou a ganhar força no pensamento e no decurso do tempo a partir do Iluminismo, e estoura no século XX com os “pós-nietzscheanos”. Mas antes de Nietzsche e dos seus “continuadores”, já se tinham nomes de peso e que são muito úteis como “notas de rodapé” em vários escritos, ainda hoje. Dentre tantos, destacaram-se Baruch de Espinoza, um grande racionalista da era moderna, Søren Kierkegaard, considerado o “pai do existencialismo”, Immanuel Kant, Comte, Hegel, Marx, Schopenhauer etc. Mas, quem já ouviu falar no padre Alfred Loisy, Paul Tillich, Karl Bultmann, Karl Barth, Teilhard de Chardin e Martin Buber? Por certo, uma minoria. Outros que ainda estão dando contribuições para a evolução do pensamento – a filosofia -, são Rubem Alves e Leonardo Boff. Destes, podemos enfatizar obras valiosas como “O que é religião?”, “Conversas com quem gosta de ensinar”, “Entre a ciência e a sapiência” e “A águia e a galinha”. Os citados mais acima, filósofos-teólogos ou teólogos-filósofos, tanto faz, estão quase que esquecidos nas estantes, empoeirados, como pessoas-livros desinteressantes e desacreditados.
São dignos de destaque, já que foram em uma boa parte esquecidos, pensadores como Paul Tillich, o padre Alfred Loisy e Teilhard de Chardin. O que esses homens tinham em comum é o fato de que eram Teólogos, que ascenderam o pensamento crítico e (re)acenderam a chama do que hoje entendemos como Filosofia.
Tillich, homem culto, bem formado e informado, desmistificou muita coisa no âmbito teológico. Nele garimpamos tantas pedras preciosas, informações importantes na crítica teológica que até então estavam guardadas a “sete chaves”. Sua leitura nos faz entender, tanto como se dá a articulação da imposição teológica ao leigo, quanto cria aberturas consistentes e fundamentadas na sua área, que, diga-se de passagem, é uma autoridade e ponto, e o resumo de toda sua obra nos oferece maravilhosamente uma compreensão do que é e não é, dentro da perspectiva de que a massa é de facto mal informada que chega ao ponto de aceitar toda e qualquer interpretação dos escritos ditos sagrados. Com ele entendemos que a hermenêutica exegética e sistemática é importante, e que o resto é balela manipuladora.
O padre Loisy é de uma sinceridade tamanha na historiografia religiosa e seus novos métodos teológicos lhe custou a cátedra de Filosofia na Universidade de Paris e excomunhão da Igreja Romana em 1908. Ele desenvolveu um projeto de pesquisa, que a priori pretendia provar a historicidade de Jesus, e concluiu que não havia nenhum documento indubitável que resolvesse o problema da existência do cristo.
Chardin foi um notável pesquisador da evolução do Planeta, crítico do dogma “pecado original” – nesse ponto ele é obrigado a assinar uma retratação e consequentemente abandona o ensino acadêmico em Paris -, e seu poder investigativo causou sucessivas proibições de publicação, mas deixou um legado extraordinário de seus domínios científicos. O que mais influiu dele foi a idéia de desarticular a dicotomia ciência-religião.
Costuma-se fazer uma “conclusão” para artigos, resenhas, escritos de forma geral. Este escrito trata de um convite à reflexão e, ironicamente, uma sugestão para aqueles que gostariam de conseguir a “Bulla Ex Communio”. Dizem por aí que existe, se não um movimento articulado, mas um grupo de pessoas isoladas pleiteando-a.
Et maintenant, à vous!
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Militante ou não militante?
O termo militância vem de militar, e carrega em si um posicionamento político fundamentado na luta sob circunstâncias armadas. Embora não implique grosso modo que seja uma postura restrita a tal. Como se sabe, as palavras evoluem semanticamente e nesse caso específico, qualquer um que defenda uma ideologia, milita por ela, com ou sem violência. Houve um tempo, e é evidente que ainda nos situemos historicamente, em que grupos específicos necessitaram de um processo de resistência, afirmação e defesa dos seus direitos. Os negros, os homossexuais, as mulheres, e outros grupos específicos que estiveram e estão em voga ainda hoje.
O racismo é abominável aos olhos da contemporaneidade. Mas existe um equívoco quando se fala a respeito. A questão é que outras etnias estão ou foram esquecidas por conta do volume de protestos relacionados ao racismo africano. Os nativos (ou índios) de toda a América, aborígines australianos, palestinos, dentre outras etnias, caíram no descaso do discurso anti-racista. Os movimentos de defesa dos direitos sócio-políticos dos negros são louváveis no desdobrar histórico, mas militar requer um tipo de comprometimento que pode beirar o fanatismo, principalmente quando é liderado por negros ou os ditos simpatizantes extremistas. A auto-afirmação de um grupo racial não pode ultrapassar suas conquistas; não pode ter caráter substitutivo em relação a uma hegemonia anterior. Devemos convir que toda massa mobilizada pelo ressentimento ou discurso apaixonado, devido a acontecimentos passados, não está uníssono informada sobre todas as questões que lhe diz respeito. Não seria o processo de militância em prol da “igualdade” de cidadania dos negros, que hoje se configura mais como grupo-alvo de discriminação racial, um tipo de persistência ad infinitum tendenciosa que cria aberturas para uma tentativa de sobreposição étnica? Vestir uma camisa com a frase “100% negro” é, no mínimo, estranho, quando não, uma afronta àqueles outros grupos já citados aqui. E é também uma manifestação racista, tanto quanto seria se o slogan fosse “100% branco”, ou palestino, indígena e assim por diante.
O feminismo parece ser uma novidade na história, mas não é. Aristófanes, ha cerca de 2.400 anos atrás, concebeu uma sociedade utópica, na qual a mulher estaria numa posição acima do homem, nas questões políticas e sociais. O movimento feminista dos séculos XIX e XX foi importante, e até necessário, para que se rompessem os paradigmas que colocavam a mulher numa condição de inferioridade diante do homem. Isso não quer dizer que a tão sonhada igualdade de gênero devesse ser aplicada de forma generalizada. Homens e mulheres têm suas diferenças, e negá-las é violar princípios fundamentais no campo da biologia e até da psicologia: homem e mulher são anatômica e psicologicamente diferentes, quer queiram ou não. Em muitos aspectos da vida eles se portam de maneira peculiar, para não dizer antagonicamente. A importância da questão diz respeito às conquistas das mulheres em sua participação efetiva nas decisões políticas, em seu enquadramento no mercado de trabalho, nos direitos conquistados no quesito violência, mas nunca relativo aos tipos de igualdade já citados. Se assim fosse, poderiam ser aplicadas leis que considerariam certos aspectos também atenuantes para os homens, visto que para a mulher, existem de fato – os homens não têm TPM e a depressão pós-parto, portanto, se configuraria hipoteticamente sua desvantagem, por exemplo, na área criminal.
A homossexualidade é um tema que incomodou bastante a moral religiosa. Mas antes de existirem as religiões proeminentes, a prática homossexual em culturas antigas como a greco-romana, tinha um valor cultural que se colocava distante da excentricidade. A “geração 68” foi um movimento crucial, embora utópico, que marcou e demarcou o tempo que se sucedeu. A luta pela liberdade sexual foi bem engajada e contou com grandes contribuições nas artes, na literatura, na música, nos protestos etc. Mas amor e sexo são coisas distintas. A partir dos anos 60, numa era pós-guerra, foi importante impor o “amor” em detrimento do que a humanidade já presenciara. Só que esse amor, como expressava as canções da época – “all we need is love” (tudo que precisamos é amor) -, era, talvez, ambígua e proposital, por conta da guerra e da repressão sexual daquela época. Paradoxos à parte, o que se pode obter dessa revolução é quase uma nova (conquanto antiga) imposição cultural. E é daí que nascem algumas questões: Todos “são” gays? Todos “devem” se tornar gays? Todos devem partilhar da cultura do “amor-livre”? Porém, não é a moralidade religiosa que vai respondê-las, e sim a disposição individual em frente a esses referenciais da pós-modernidade. A homossexualidade e a liberdade sexual não devem e nem podem ser impostas a ferro e fogo, como também não devem ser alvejadas de forma opressora por quaisquer grupos radicais. Mas fazem parte de uma utopia e, portanto, é imprescindível que se tenha cuidado em fazer apologia, tanto a uma quanto à outra coisa.
O ateísmo talvez seja o grande problema. Primeiro, porque os negros que lutam pelo fim definitivo da escravidão, as mulheres emancipadas militando pelo fim da diferença de gênero, e também os homossexuais na busca de provas para sua normalidade na postura sexual que se assumem, estão longe de se meterem numa briga de desvantagem. Talvez não tenham se dado conta de que vivemos uma época de emancipação do pensamento, da crítica, do empirismo e do ceticismo. Gays, negros e feministas podem não ter percebido também, que quem os reprimiu foram os religiosos fundamentalistas. O ateísmo não é determinista, mas é subjetivo. Um fator subjetivo que nasce da objetividade, na maioria dos casos. A filosofia, as ciências, o despertar do indivíduo descontente em relação às certezas e os dogmas religiosos, são alguns combustíveis que alimentam essa tendência. Mas militar pelo ateísmo teria uma tonalidade catequizadora, desrespeitosa e parcial. Os ateus mais ponderados estão aí para promover um tipo de conscientização do ser ateu, o que difere da institucionalização do ateísmo como corrente ideológica que finda todo avanço do conhecimento humano. Ser ateu, tal como se entendem, é não acreditar em divindades. Assim como ser cético significa “olhar de longe”. Então, dissolvida a problemática, o que sobra é “não incutir o ateísmo ou o ceticismo” a outros, mas tornar possível o diálogo e nele, discutir modelos, verdades e perspectivas, e nunca o que deve ou não ser considerado como verdade absoluta.
O que se conclui aqui é que nenhuma militância é sadia, pois ela implica em manipular ao invés de tão somente influenciar. E a influência não obriga ninguém a seguir qualquer tendência ideológica.
domingo, 4 de outubro de 2009
Brevilóquio sobre o Romantismo
Quem leu “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe e não ficou embasbacado com o masoquismo extremista do protagonista do romance? Decerto choraram, deixaram seus sentimentos mais íntimos sobressaírem, tiveram um momento de ‘abreação’ fora do plano onírico, reiteraram o absolutismo de uma cultura fundamentada na arte de romantizar a existência. Culpados? Não! Talvez fossem todos, por osmose, induzidos a fomentar uma necessidade de afirmação do ego. A insatisfação com o racionalismo e o objetivismo, entre outros fatores políticos e filosóficos, desencadeou uma onda de produção literária que tentava fugir do Iluminismo com escapismos reativos e utópicos. Daí veio todo arsenal dramático, estético, trágico, e com ele uma nova perspectiva da relação de sujeitos. O Lirismo acentua-se, então, como insurreição aos modelos milenares de produção de arte, política etc.
Isto explica por que os meios de comunicação popular estão, hoje, em voga. Quilômetros de romances são produzidos e transformados em cinema, novela televisiva, e até reflete na música. Uma das mais conhecidas e importantes obras de Beethoven é a “moonlight sonata”, embora a revolução musical do século passado tenha adormecido os compositores clássicos, trazendo uma versão mais “sofisticada” do gênero, com guitarras elétricas e melodias em “escala menor”, principalmente a partir dos anos oitenta. Toda melancolia possível foi articulada pelas grandes baladas e o sucesso garantido. Uma das músicas mais tocadas nos anos noventa foi “creep” da banda Radiohead. Sua letra é uma total auto-humilhação: “Você é como um anjo... tua pele me faz chorar... mas eu sou um ‘verme’, um esquisitão... eu não me importo se isso machuca... você é tão especial”, e por aí vai. A colocação sublime da mulher ‘perfeita’ (caráter estético) é aterrorizante. A auto-depreciação e auto-flagelação sentimental são peculiaridades quase que exclusivas da contemporaneidade e se distancia relativamente do byronismo, que tinha uma roupagem mais narcisista e egocêntrica, mas se equipara no quesito pessimista e angustiante do poeta romântico.
Machado de Assis, com todo sarcasmo que lhe cabia, faz uma crítica irreprochável da invasão romântica no nosso território em “Memórias póstumas de Brás Cubas” e atua como divisor de águas, introduzindo o realismo por aqui. Contudo, quase toda nossa produção literária e audiovisual é um elogio à forma européia moderna de pensar. Quase não se ouve falar de Kinsey com seus estudos sérios voltados para a sexualidade e conquistas importantes: em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria removeu a homossexualidade da lista de desordens mentais e em 1986, a Organização Mundial de Saúde passou a não considerar a homossexualidade como uma doença. Em 2004 produziram um filme ‘biográfico’ e uma das falas atribuídas a ele diz que “o animal humano é capaz de todo tipo de expressão sexual. Nem todo tipo de sexo tem que ser sancionado pelo amor e enriquecido pelas emoções”.
Como entender a forma de pensar dos gregos, romanos, egípcios, indianos, japoneses, maias, astecas, na antiguidade, se no ocidente o romantismo é como uma religião? Quem mais sofre com toda essa estruturação conceitual das relações afetivas talvez seja a mulher, que idealiza mais a questão, “elas aumentam seu poder e se apresentam mais desejáveis aos olhos dos homens. Mas, tendo se habituado a essa superestimação do amor durante séculos, aconteceu que elas caíram na própria rede e esqueceram tal origem” – Nietzsche.
Mas os românticos nem sempre eram o que hoje entendemos. Alguns eram boêmios, viviam em cabarés, tinham uma vida luxuriosa, compunham poesias e romances por terem intrinsecamente a grande necessidade de estabelecer parâmetros inalcançáveis, como a moralidade religiosa.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Questionáveis!
Faz um tempo que li a respeito e concordo com muitos que aí estão desconstruindo a História. Eis algumas versões de supostos fatos são colocadas, graças à coragem dos "Revisionistas":
1. O Diário de Anne Frank - Escrito adulterado:
http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/annefrank.html
2. O Holocausto - Ênfase dada "só" depois da 'Guerra dos 6 Dias' e que mais tarde serviu para sionistas extorquirem bancos suíços, empresas alemãs e a Polônia:
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=311 (livro A Indústria do Holocausto, que cria muitas aberturas para compreender o esquema sionista)
3: 6 milhões (de judeus) realmente morreram (na II guerra mundial)?
http://radioislam.org/islam/portugues/revision/didsixm/2.htm
Download: 6 milhões realmente morreram?
4: Câmaras de gás - genocídio ou "fungicídio"?
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2009/01/29/padre+afirma+que+camaras+de+gas+nazistas+existiram+para+desinfetar+3700919.html
5. Pearl Harbor - pretexto para testar as bombas atômicas:
http://www.youtube.com/watch?v=zB-XL3UwFKI
6. "11 de setembro" - uma armação política dos EUA para justificar a invasão no Oriente Médio:
http://www.e-farsas.com/artigo.php?id=40 (ver ainda o documentário "Zeitgeist")
7. Julgamento de Nuremberg - Falta de suficiente prova documental:
http://www.inacreditavel.com.br/novo/mostrar_artigo.asp?id=392
1. O Diário de Anne Frank - Escrito adulterado:
http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/annefrank.html
2. O Holocausto - Ênfase dada "só" depois da 'Guerra dos 6 Dias' e que mais tarde serviu para sionistas extorquirem bancos suíços, empresas alemãs e a Polônia:
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=311 (livro A Indústria do Holocausto, que cria muitas aberturas para compreender o esquema sionista)
3: 6 milhões (de judeus) realmente morreram (na II guerra mundial)?
http://radioislam.org/islam/portugues/revision/didsixm/2.htm
Download: 6 milhões realmente morreram?
4: Câmaras de gás - genocídio ou "fungicídio"?
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2009/01/29/padre+afirma+que+camaras+de+gas+nazistas+existiram+para+desinfetar+3700919.html
5. Pearl Harbor - pretexto para testar as bombas atômicas:
http://www.youtube.com/watch?v=zB-XL3UwFKI
6. "11 de setembro" - uma armação política dos EUA para justificar a invasão no Oriente Médio:
http://www.e-farsas.com/artigo.php?id=40 (ver ainda o documentário "Zeitgeist")
7. Julgamento de Nuremberg - Falta de suficiente prova documental:
http://www.inacreditavel.com.br/novo/mostrar_artigo.asp?id=392
sábado, 19 de setembro de 2009
Complexo de Kafka
"Meus heróis morreram de overdose", cantava Cazuza. Foram todos condenados enquanto vivos e postumamente. Levados ao tribunal por um crime que desconheciam, julgados e queimados na fogueira do preconceito. Eles usavam LSD, cocaína, maconha, heroína etc. Quais os seus crimes "doutor"? "Eles devem estar se perguntando" em seus túmulos de nada. Ah! mas foram tantos... Giordano Bruno, Morrison, Hendrix, Janis, Syd Barret, Nietzsche, Espinoza, Jeff Buckley, Voltaire... e tantos outros. Mas, onde estão as fogueiras? Onde estão as fogueiras, hoje? Estão nas línguas, nos tablóides fascistas, nos "palcos" das igrejas-túmulos-de-deus, nos tribunais montados, e seus acusadores palhaços do circo de horrores - freak show -, celebram todos os dias por cada um que desceram à tumba. 1789 foi um ano importante para todos eles, e mesmo assim, o julgamento de Kafka vale para todos, inclusive quem se recolhe no seu ostracismo social, na sua misantropia, na sua caverna da meditação - Zaratustra - para pensarem algo solucionador dos problemas do mundo. E veio Woodstock como protesto tardio, por que os asnos só eram capazes de condenar, lançar bombas atômicas sobre cidades, sobre gente inocente. Um grande YES para Hendrix - que continue a queimar sua guitarra revolucionária e a lançar os mísseis dissonantes diretamente em nossos ouvidos receptivos. Talvez daqui a alguns anos sejamos de fato atingidos por essa arma "paz e amor".
Viva o rock n roll da liberdade de expressão, do protesto coerente, porque a guerra, a guerra... ah, essa não tem nada a ver mesmo! Quem dera pudessem ressuscitar estes grandes homens, estes homens e mulheres de verdade! Quem dera o "I have a dream" do Luter King pudesse ser ecoado como a trombeta do apocalipse pelos quatro cantos da terra, e fizessem todos acordar para um novo aeon! A humanidade precisa de um novo começo, uma pontaria certa para atingir quem realmente precisa, não mais com Inquisição, Bush's, Bíblia, e sim com livros - mas queimaram todos no Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, que foi bem capturado pelas lentes do glorioso Truffaut.
E ainda resta, para muitos, o complexo de Kafka, porque os tempos não mudaram, os tempos não mudam assim... de uma geração para outra. São todos os dias levados a julgamento sem saberem o porquê. Enquanto os seus carrascos fazem orgias em seus palácios de algodão doce recheado de ouro, dinheiro sujo e sangue inocente. Mas não nos esqueçamos da rosa de Hiroshima! Ela pode brotar do chão inóspito à beira destes impérios e fulminar toda sua hipocrisia... os tempos haverão de mudar, cedo ou tarde, embora já seja tarde, quase tarde demais para tal.
Acontece que não vamos parar de tocar Animals do Pink Floyd e cantar uníssono Imagine do Lennon. Vamos lutar sem fogo ou automáticas israelenses. Vamos gritar um "porra" para toda esta baboseira que já fomos capazes de tolerar ouvir e testemunhar.
Sou ateu? Meu Deus!
Em poucas palavras?
Qual o problema em ser ateu, se os verdadeiros criminosos carregam o crucifixo?
Qual o problema em pensar diferente, pois todos os iguais são potencialmente paradoxais, travestidos de dupla personalidade?
Qual o problema mesmo?
Antes era doença ser gay, repugnante ser negro, demoníaco ser muçulmano, periculoso ser despolitizado ou anarquista...
Agora, a moda é ser visto como tudo isto... o ateu!
Ateu: sem Deus!
Meu Deus... Sou ateu!
Matei? Roubei? Estuprei? Enganei? Abusei de menores de 15 anos? Comi criancinhas no almoço e jantar? O que eu fiz... meu Deus?
Sou ateu... tenho até medo de "sair do armário" e encontrar uma "bala perdida" direcionada, com mira laser, na minha cabeça!
Sou ateu... fiz pacto com demônios inexistentes? Joguei chiclete na cruz do intocável Jesus?
Bem, de qualquer modo, meu modus operandi e idiossincrasias são assim... típicos de ateus.
Que devo fazer, senhores e senhoras? Me sentenciar à pena de morte por ser e pensar assim?
Sou ateu, e me projeto bem melhor nas relações interpessoais... quando as desejo, e quando não... sou ateu (misantropo, recolhido, frustrado, feliz) e mesmo assim, não sei o que é o desespero.
Pronto! Sou ateu... mas do meu lado estão as maiores e melhores personalidades que esse planeta já teve!
Meu Deus! Sou ateu!
Sou ateu, meu deus?
Sou ateu... sou eu!
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Niilismo
Não é de se espantar que ainda hoje muitas pessoas acreditem que negando a vida, a “única” vida que conhecemos, serão recompensadas numa vida pós-morte. Mas esse fenômeno era mais acentuado há trezentos anos atrás. O que ocorria para que isto fosse tão acentuado é que o mundo estava sob as rédeas ideológicas que o cristianismo herdou do platonismo. Por não ter explicações para a falta de sentido da vida, a religião impôs a ferro e fogo, no apogeu da cristandade, a sua própria verdade, e esta imposição não permitia alternativas para o “rebanho”. Então veio a revolução industrial, mudou o quadro clínico da humanidade e serviu como “bengala” para suportar a derrocada do discurso sacerdotal, que era o puro “niilismo passivo”. É claro que a maioria não se dava conta de que negando o hic et nunc estavam jogando suas vidas no “Geh Hinnóm” – os tradutores do hebraico preferiram traduzir para “inferno” na Bíblia por ser uma palavra assustadora e capaz de tirar o estímulo de uma pessoa comum em relação à viver naturalmente -, que literalmente significa “Vale de Hinom”, apenas um depósito de lixo fora dos muros de Jerusalém. Eis o Niilismo Negativo: o homem com a crença da obrigação de “desviver” para no além-túmulo reviver e gozar as benesses do seu sacrifício.
A revolução industrial trouxe uma nova visão da vida e contagiou muita gente, e o modus vivendi que a religião tinha imposto estava perdendo o sentido de ser. O Niilismo Negativo teve falência parcial e perdeu sua imunidade com a vacina quase eficaz de um novo tipo de vírus filosófico chamado “progresso” – O Niilismo Reativo. Problema resolvido? Não! O ser humano ainda continuou a negar a vida, ou seja: o instante, o agora, o presente… Ele criou uma falsa sensação de que substituindo a crença de uma vida pós-morte pela “crença no futuro”, o problema da vacuidade existencial estaria de fato resolvido. Mas os anos se passaram e os homens começaram a perceber que todo trabalho para dar sentido à vida estava sendo em vão. O presente com todo seu encanto e “magia” – leia-se “mistério” – também estava sendo esquecido em função de uma forte expectativa de felicidade futura, ainda aqui na Terra.
O século XIX é o momento em que o homem começa a admitir que não existe solução para resolver a questão do seu vácuo existencial. Ele ficou preso no Niilismo passivo. E é então que Nietzsche aparece para diagnosticar a nova modalidade de vírus. Ele se colocou na pele dos homens do seu tempo, embora não fosse de lá, e soube desenvolver sem laboratório, a cura para o mal da insatisfação geral diante da existência:
“Minha fórmula para o que há de maior no homem é amor fati: nada querer de outro que o que é, nem à frente nem atrás de si, nem nos séculos e séculos. Não se contentar de suportar o inelutável, e ainda menos dissimulá-lo – todo idealismo é uma maneira de mentir para si diante do inelutável – mas amá-lo…” (Ecce Homo).
Nietzsche apresenta o Niilismo Positivo, uma forma de encarar a vida com outros olhos. Para ele, a vida não precisa ter sentido para fazer sentido, basta viver o hoje e amá-lo como ele é, sejam quais forem as circunstâncias.
Fim da questão? Ainda não! O que ocorre é que a filosofia, mais especificamente a do Nietzsche, apenas aponta para algo que estava por vir e que finalmente a humanidade precisara: a ascensão e autonomia da Ciência!
As bases que inspiraram o maior filósofo do século XIX foram pré-socráticas e pós-darwinistas, que nos dizem algo muito importante: provavelmente a vida não tenha sentido – se tentarmos dar um sentido generalizado para ela -, mas certamente não é negando-a que encontraremos uma saída “à francesa” para os problemas que nela estão contidos.
O Niilismo é uma forma interessante de simplificar a existência. Mas a vida enquanto vida não pode ser apenas uma nulidade. Pelo contrário: é uma exuberância digna de gratidão – ao acaso? -, por tudo que é capaz de proporcionar aos que foram presenteados com ar, chuva, dores, amores, filhos, rios, sol, vinho, desapontamentos, prazeres etc.
2001: uma perspectiva da humanidade
A idéia nietzscheana parece ter sua origem em Darwin da teoria da seleção natural. Nietzsche viu a vida como "uma luta pela existência, em que o forte sobrevive, a força é a única virtude, a única fraqueza é a culpa." De acordo com Nietzsche, a evolução do homem irá percorrer três etapas: o homem primitivo (macaco), o homem moderno, e em última instância, o super-homem. Destes, Nietzsche escreveu: "Que é o macaco para o homem? Uma zombaria ou dolorosa vergonha”. “Pois é o mesmo que deve ser o homem para o super-homem: uma irrisão ou uma dolorosa vergonha”. “O homem é apenas uma ponte entre macaco e o super-homem, mas para ser super-homem, o homem deve usar a sua vontade de fazer acontecer”, uma vontade de procriar ou de uma unidade para um fim, para algo maior e mais distante.
A idéia de Nietzsche é elaborada em sua crença de que o espírito do homem é nascido de dois deuses: Apolo e Dionísio. Dionísio era “o deus do vinho e da festa, de ascendente vida, de alegria na ação, emoção e deslumbrado de inspiração, de instinto e de aventura e destemido sofrimento, o deus da música e música e dança e teatro.” O oposto de Dionísio é Apolo, “o deus da paz e de lazer e repouso, da emoção estética e intelectual contemplação, de ordem lógica e filosófica calma, o deus da pintura e escultura e poesia épica”.
Com base nesta idéia, o homem primitivo é dionisíaco em espírito, conduzido pelo instinto e vivendo no momento, mas lhe faltam capacidades intelectuais. O homem moderno, porém, é apolíneo em espírito, pacífico e calmo, conquistado pela democracia, socialismo, e as religiões como o cristianismo e o budismo. Todos os vestígios do instinto do homem foram extintos - deixando o homem como uma criatura patética, no olhar de Nietzsche. O super-homem vai ser um passo para trás em direção a um estado dionisíaco. “Um retorno à natureza, embora não seja realmente uma regressão, mas uma elevação - até para o alto, livre, mesmo com uma terrível natureza e naturalidade.” O super-homem vai recuperar o instinto do homem perdido.
Nos filmes do Kubrick, a idéia do homem primitivo pode ser encontrada em “2001” e “Laranja Mecânica”. A representação primitiva do homem em “2001” está no segmento “The Dawn of Man”, que abre o filme. Este segmento representa o homem primitivo adquirindo o instinto de matar, que é simbolizado com o aparecimento do monólito. No romance de 2001, o principal homem-macaco (chamado Moon-Watcher) após adquirir esse instinto e matar outro macaco-homem é descrito como o comandante de todo o mundo e pensar, ele não foi muito bem ao que fazer em seguida. Mas ele seria um tipo que pensa em alguma coisa. Este é um exemplo claro de como o homem primitivo é um ser de ação e do momento, um espírito dionisíaco.
(texto extraído e traduzido do site http://www.visual-memory.co.uk/amk/doc/0013.html)
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